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Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
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O sol beija o dia. O calor malemolente traz a sedução enebriando os poros. A sedução do corpo no consumir da alma. Ela se estica, preguiçosa, e o toque dos dedos resvala na pele, rasgando desejos, despertando sentidos. E tal ardor perdura, madrugada adentro, inquietando a cidade.
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posted by Diandra Taliasin at 8:18 AM
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Terça-feira, Dezembro 03, 2002
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Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.
Júlio Cortázar - O Jogo da Amarelinha
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posted by Diandra Taliasin at 9:40 AM
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Sábado, Novembro 30, 2002
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Porque sempre passa muito tempo do tempo que desejamos.
Porque sábado, o domingo adormecido.
Porque o violão ecoa nas paredes. Esboços que serão tantas lembranças vazias no branco calado de mais ausências.
Porque a cada instante, os olhos perdem o brilho, a voz ganha a rouquidão do cansaço do corpo, da placidez do desprendimento da alma.
Porque as guerras deixam de ser anseios de vitórias e, borboleteando, voam como páginas de um livro há muito escrito.
Porque o carro dá voltas nas ruas esquecidas e redescobre espaços perdidos, e desenha arquiteturas cobertas de novas luzes.
Porque eras não trazem o que foi, e séculos ainda não serão.
Porque o espalhar-se na janela embebe o corpo do horizonte que esta cidade abraça.
Porque o azul que o sonho busca está ali, despojadamente parado na esquina que não existe.
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posted by Diandra Taliasin at 11:23 PM
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Quarta-feira, Novembro 13, 2002
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Os dias são revoltos e o tempo se parece à cortina do meu quarto, que se desfaz nos fios e abre o espaço da luz. Faltam horas para a serenidade de apenas sentir, de apenas deixar-me aqui, imersa, desperta, alheia, completa.
Por entre os olhos que quase se fecham no despertar dessa madrugada, encontro o presente do encanto que se enconde em uma terra de muitas palmeiras.
Se me falta a voz, ele me dá o tom de sorrisos que teimo em buscar por aqui.
Enquanto os instantes se perdem num alfarrábio de atribulações, me aninho nas estrelas que sopram beijos aos que tanto quero bem.
Stand by
Desde ontem Tenho nas mãos Este algo inacabado Que desfaz nos dedos Planos para o amanhã Em troca deste algo Tudo ou nada permanece A vida paira insaciável Num vôo que segue leve E me vem quando em vez A voz do vento Um en (canto) perene Que me enfeitiça a alma Clivânia Teixeira
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posted by Diandra Taliasin at 11:05 PM
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Quarta-feira, Novembro 06, 2002
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Formas
De um único modo se pode dizer a alguém: " não esqueço você". A corda de um violoncelo fica vibrando sozinha sob um arco invisível e os pecados desaparecem como ratos flagrados. Meu coração causa pasmo porque bate e tem sangue nele e vai parar um dia e vira um tambor patético se falas no meu ouvido: " não esqueço você". Manchas de luz na parede, uma jarra pequena com três rosas de plástico. Tudo no mundo é perfeito e a morte é amor.
Adélia Prado
Porque ela como eu, gosta do som das palavras. E ao perguntar-lhe num encontro este ano, que palavra estava dançando em sua mente, ela sorri e escreve: Espírito.
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posted by Diandra Taliasin at 7:05 PM
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Quarta-feira, Outubro 30, 2002
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Eram quatro da manhã e o interfone tocava sem parar. Do outro lado, a voz ranheta e rouca urgia pela presença, comunicando o arrombamento do carro. Ela fica meio estática entre a cozinha e o corredor. Por chamadas às quatro da manhã , o telefone hoje não toca mais. Por toques estridentes, às quatro da manhã, o celular repousa em alguma gaveta perdida. Zonza e semi adormecida, as ações seguem uma lógica díspar: não esquecer de escovar os dentes, separar os brownies e quitutes como agrado aos queridos que são pouco vistos, prender laboriosamente o cabelo, achar a chave de casa. Quase na porta a dúvida? Será que eu lembrei de escovar os dentes? Pelo sim, pelo não, nova guerra com a escova. (Sim, ao término da segunda escovação, ela se lembra que havia realizado a primeira).
Embaixo do pilotis do edifício, os guardiões tensos aguardavam. Foi só o vidro, dona. Ele só tirou o vidro, e mesmo assim sem quebrar.
Ela sorri, já desperta, sempre leve e sempre divertida. A fuga do vidro é uma excelente desculpa para admirar mais um nascer do sol, engolindo as lâmpadas, acendendo as luzes da cidade.
E no trajeto permeado pelo azul indecente daquele horizonte plano, o silêncio do dia que inicia a encontra sozinha no carro. Mas repleta dos olhos almas sonhos daqueles que guarda.
Para tudo há uma estação, e um tempo para cada propósito sob as estrelas.
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posted by Diandra Taliasin at 5:07 PM
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Terça-feira, Outubro 29, 2002
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Dentro de mim há um lugar onde vivo totalmente sozinha; é lá que se renovam as fontes que nunca secam. Pearl S. Buck
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posted by Diandra Taliasin at 12:08 PM
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Feeling today:
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:: Sons
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:. Diary of Dreams - Flood of Tears
:. Dave Matthews Band - #41, Say Goodbye
:. Rufus Wainright - Poses
:. J.S.Bach - Cello Suites
:. Cordas,sempre, tanto e mais, cordas
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:: Letras
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:. As Aventuras de Um Violoncelo
- Carlos Prieto
:. Siddartha - Herman Hesse
:. The Dragonriders of Pern - Anne McAffe
:. Fernando Pessoa - Obra Poetica
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:: Memorias
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