Na Floresta do Alheamento
      Divagações sobre um tempo etéreo...
      Devaneios imaginários da vida cotidiana que nos engole...

      " ... e que não tardeis tanto quanto o quebrar das almas , no intocável silêncio do desespero."


Quarta-feira, Outubro 01, 2003

E hoje é a imperatriz das cidades... alçar o vôo desde as asas metálicas, abraçando o fustigar de luzes intermitentes.
Os lençóis casam ton sur ton com as cortinas, de paredes antigas, pesadas portas de madeiras com pórticos, espelhos emoldurados no gesso branco, seguindo a parede, como se ali sempre houvessem pertencido.
O silêncio e a calma, primeiros nos últimos 30 dias, me trouxeram de volta o lirismo.
De novo sentar sozinha, ouvir apenas o leve ressonar do ar condicionado. Levantar, pisar os azulejos amarelecidos, escolher músicas, ligar a TV, pensar nas histórias que aqui passaram, nas tantas vidas que já trilharam esses mesmos tracejos, em passos distintos.

Abelardo me olha daqui, mostrando em slides os instantâneos deste final de semana. Flashes de risos, de surpresas, de realizações, de conquistas, de cumplicidade, de belezas, de destinos.

E numa colagem insana, todos se misturam.

O repassar do dia, horas que começaram em meio a madrugada, e saltitaram traquinas pelo resto da tarde, apenas para se aninhar na poltrona do Fokker 100. A nítida impressão de que eu fazia uma mala que não era minha, mas de tantas, das mesmas, das que adormeceram, das que houvera e das que virão. Sempre as nossas facetas, que voltam bombardeando quando se permite.

Aliás, palavra dos dias: permitir-se.
Qualquer coisa, nenhuma coisa, todo anseio, desejo, lampejo, desvelo.
Tentar, arriscar, ousar, aquele primeiro passo, que a gente fica calculando milimetricamente pra não sair errado, e quando vê, não tem mais chão.

Mas mesmo esse ousar tão pomposo, tão assertivo, empaca nas tão caras ânsias do que é cômodo. E parar para pensar na casa que fica, no gato, nos livros que me compõem, na mesa que eu tanto quis, nas pilhas de cds, nos quadros que esperam paredes, nos caminhos de carro em meio a lua, nos rostos conhecidos ao alcance do telefone, no carinho da mãe, os lugares prediletos. Pronto. Daí é sentar e esperar a crise de pânico passar, porque o medo do novo, o medo do que muda ou do que pode mudar é vão e tolo.

Isso tudo sempre rindo das guinadas nos planos. O almoço que era programado se torna a correria entre as fotos e o estacionamento onde mora o Cheddar, o roubo das horas que eram da família pelo shopping, as duas dúzias de rosas azuis que não se podia carregar e se tornaram vento, a pane seca do carro na hora de ir gravar cd, o catar outro carro e ir correndo pra casa e descobrir na porta que a chave tinha ficado em outro lugar. A chuva que cobria a cidade na despedida, a luta para fechar a mala e de repente a calmaria...
O olhar alheio de quem vai, com data certa, com tempo certo de retomar o cotidiano abandonado. Ou não. O tal primeiro passo fora do monomotor antes de começar a contar pra abrir o paraquedas. O mesmo frio na barriga, a mesma emoção de que o que vem é distinto, é desapegado, é desbravador de espaços e de muralhas.

É aí que eu volto: permitir-se.
Permitir-se parar para fotografar a borboleta na parede da sala de desembarque do aeroporto.
Permitir-se abrir os braços ao descer do avião, parado do lado do aeroporto, como aquelas viagens de infância decolando e pousando nas bases aéreas.
Permitir-se ter um notebook Abelardo e um jegue Astolfo.
Permitir-se ligar pro homem lindo no meio da madrugada para contar besteiras e contar estrelas que se apagam, porque é bom contar e porque é gostoso saber que se é ouvido.
Permitir-se brincar com o que é estabelecido, para torná-lo fluido. Com o que é assumido, para torná-lo novidade. Com o que é assincrático para torná-lo possível.
E a primeira regra: permitir-se errar para tentar de novo. Sempre cuidando os olhos, mas arriscando o passo.

Colho lírios da beira do rio que me saúda nesta tarde


Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 4:14 PM
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