Na Floresta do Alheamento
      Divagações sobre um tempo etéreo...
      Devaneios imaginários da vida cotidiana que nos engole...

      " ... e que não tardeis tanto quanto o quebrar das almas , no intocável silêncio do desespero."


Quinta-feira, Março 27, 2003

Eu sempre gosto dos sons das letras e dos labirintos que elas perpetuam.

E gosto do riso do moço que nasce hoje, despertando entre horas,
E gosto da presença inefável do avatar cavaleiro, que volta sempre no corcel negro à sua terra de muitas palmeiras. E busca na alma da moça, que dança no vento, o nome dos olhos, os sonhos que escondeu na algibeira.

E gosto de outras vozes, tantas ainda dispersas, insípidas, tímidas.
Vozes de todos os sons nas letras do tempo.

Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 4:38 AM
Terça-feira, Março 25, 2003

Ela esquece que minha praticidade está sempre envolta em inúmeros contratempos.

Em meio à busca impossível de um nome batismal de um conjunto de tijolos em vários estilos, como solem ser nossas pequenas diatribas sem alcóol, surge o homem vestido de ouro:

"Definir uma palavra é como capturar uma borboleta no ar."

Porque sempre ela, a moça dos cabelos de fogo, que vê sardas e olhos azuis.

Comentários [.0.]               posted by Diandra Taliasin at 5:23 PM
Sábado, Março 22, 2003

A madrugada que trouxe o gozo, também carrega o desejo daquela única boca, que esconde dos olhos o espelho.
E o corpo tateia, buscando tonto a veia que explode os poros, e queima.

Aquele gosto. Este beijo.

Comentários [.2.]               posted by Diandra Taliasin at 3:15 AM
Quinta-feira, Março 20, 2003

Minha vida tem cenas estranhas.
A sua também, tenho certeza disso.
Cenas estranhas, caracterizadas pela singularidade, improbabilidade, ou simplesmente pela irreal capacidade das mesmas ocorrerem.
Mas ainda assim tais cenas insólitas atravessam nossos olhos.

A tarde me trouxe a figura da mulher envelhecida, encarquilhada em anos, a saia vermelha de um tom entre a paixão e o sangue, o lenço de flores veraneando nos cabelos.
E ela tinha um balé dela, somente dela, no meio da avenida central de um setor de mansões.
Eu paro o carro ante a faixa de pedestres, e porque aflorou o sorriso naquele rosto, eu de dentro dos vidros, sorri de volta.

E a dança febril e incontida veio pousar ao lado de minha janela.
Ela estica a mão e brinca com um dos cachos revoltados que teima em fugir do rabo de cavalo que eu tanto insisto em prender.
- Ei, garota! ( a voz não é rouca, nem é cansada.. é apenas profunda, como se fora uma voz de muito tempo atrás) - Você me olha e eu danço pra tu, porque sei que o Nessum Dorma de Puccini é teu predileto.

E com uma mesura, meio torta meio inenárravel, ela se afasta, enquanto os carros atrás de mim buzinam, porque o pedestre há muito cruzou a faixa.

Nem consigo pensar nas perguntas, ou nas incontestáveis equações que andam brincando em mili segundos pela minha mente.
Apenas sinto, surgindo murmurante dentre o silêncio do veículo que se move, o eco da melodia que eu não tinha ainda reparado:

Dilegua o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All' alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!

São cinco e meia da tarde, na avenida desta cidade de luzes que rouba do céu o espetáculo do entardecer.
Cenas da minha vida estranha. Estranhas cenas da insólita vida.
A vida surreal das insólitas cenas estranhas.

(Post scriptum - Porque pirulitos azuis, o passeio das famílias na ponte iluminada, as sardas que não existem, os cabelos entre fogo e terra, as horas que brincam no tempo. Cenas surreais na realidade de todos os dias.)

Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 6:18 PM
Quarta-feira, Março 19, 2003

Ela é a ilusão que dança, passageira de uma carruagem sem condutor.
A cortina azul, envolta em ventos, desnuda o quarto, expõe o rosto em lágrimas que estampa a memória do som.
O mesmo eco, da mesma voz, que há tanto pertence, que tanto resgata o gosto da mesma boca.

Ela é sempre e hoje a colcha de retalhos, os fios tecidos do passado, as cores que vibram no presente, os riscos que se delineam amanhã.

Alheia.

Pode ser conforto, pode ser segredo, pode ser encanto, pode ser desvelo.
Pode ser tudo e enganar o nada, pode ser o nada e esquecer de tudo.

Espera.

Comentários [.0.]               posted by Diandra Taliasin at 3:53 PM
Terça-feira, Março 18, 2003

:. Da Série Letras Esparramadas - Respostas há muito devidas .:

Moço doce que sempre me encanta,

Cá estou eu de novo, a te dever palavras por mais tempo do que gostaria.
Mas o tempo aqui trouxe uma semana complicada, de afazeres em demasia e de esperanças de silêncios.
Me lembro agora, que uma vez me perguntastes se eu era muito solitária. E minha percepção da solidão é algo meio distinto: posso me sentir sozinha no meio de muita gente, e me sentir completa ao estar quieta e sozinha, entretida em algo que me agrada.
Mas tenho o dom de gostar de gente, de gostar de sorrisos, de gostar de buscar espelhos em olhos alheios.
E assim meus dias se tranformam numa roda viva de abraçar o mundo.
Talvez por isso, meu apreço tão especial pelas madrugadas. Quando os homens dormem, o silêncio acolhe, as estrelas guardam os sonhos e minha alma se desprende para vagar, meio moleca, meio diáfana, pelas ilusões do tempo.
De menina curiosa na infância, passei a moça distraída no tempo. Gosto dos encontros. Gosto das palavras. Absorvo e acalento pessoas que me emocionam. Tantos são os moços e moças queridos que vieram de empatias inexplicáveis. Um mundo abraçado em letras frias na forma, mas que carregam o calor do toque na alma.

E aproveito esses instantes agora, para tentar alcançar seus olhos e derramar o apreço que me causas.
Sempre tantas perguntas, sempre minhas tentativas de responde-las todas.
Começo corrigindo um interpretação errônea. Minha cidade das luzes não é no sul. Pensando no porque de tua escolha sulista, me recordei que Curitiba também tem luzes lindas, que singram a noite.
Mas sou cercada de luzes, porque as escolhi como símbolo do carinho que tenho pela cidade de concreto que tanto faz parte de mim. Uma cidade planejada, entre estética e funcional, nova em seus caminhos e ainda escrevendo uma história que seja contada um dia.
Capital do país, capital dos sonhos que eu queria que fossem futuro.
:)
O clima aqui é insano, meio desértico. Um calor irreprochável de dia, umidade baixissima, e um frio que me descansa o corpo em meio a noite.
Como presente, talvez, em troca da falta de praias, de montanhas, de relevo, ganhamos o céu mais absurdo, mais impensado, mais estarrecedor. Cada pôr do sol é um espetáculo de luzes lilases, laranjas, douradas.
Um dia, quem sabe, nos sentaremos a ver um desses ocasos.

O gato segue ensandecido. Tentei transformá-lo em um fire lizard (um pequeno dragão com asas diáfanas), mas ele não concordou com a idéia. E, acarinhado, faz do colo sua cama e reclama o afago das mãos ocupadas.

Sempre estrelas nos meus olhos e na alma. Sempre guardiãs das esperanças dos homens. Sempre crédulas nos sonhos possíveis e imaginários.

Beijos de lírios brancos e serenos,

Diandra

Comentários [.6.]               posted by Diandra Taliasin at 4:48 PM
Segunda-feira, Março 17, 2003

Sentimento que inebria
e perde-se no âmago do tempo há tanto perdido.
Perfila-se o desgaste e o engaste é frágil.
Infringem-se as leis da vontade a seguir e,
Esmaga-se a liberdade inerente ao próprio ser.

Flamejante como uma deusa de semblante altivo,
Pérfida como uma bruxa delineando sua trama.
Somente aquela estrela brilhava no céu desfigurado.
E, até mesmo a única estrela, se apagou.


Comentários [.0.]               posted by Diandra Taliasin at 1:30 AM
Sexta-feira, Março 14, 2003

Ela acorda, naquele ainda esgarçar de sonho que começa a fugir pela janela, com o ruído estridente do telefone, a sequência repetida do relógio e o eco dos olhos castanhos, quase negros.
Telefone na gaveta, relógio interrompido, a sensação do riso do Rei ainda na alma.
De onde vem essa cortina que descerra a cidade de arame?

Ainda o torpor, ainda o gosto das definições envoltas em tilintares melancólicos.
Ele é o Rei da Pérsia, ela, a Rainha de Sabá.
Ele o caminho do mundo, ela, a alma composta da humanidade.

Agora o aspirador de pó, o movimento das caixas que se desfazem, reconstruindo um novo espaço.
Há sempre espaço,entre aquelas árvores.
Há sempre vinho, entre aquelas letras.
Há sempre madrugada, entre aquelas horas.


Comentários [.2.]               posted by Diandra Taliasin at 10:37 AM
Quarta-feira, Março 12, 2003

Talvez existam brumas que me protegem dos sentidos alheios.
Talvez eu seja as brumas.

E talvez haja passado muito tempo, muitas folhas que se desprenderam de árvores argênteas.
O tempo... contínuo guardião dos cristais que não conseguimos alcançar.

O branco inverno adormeceu os sonhos, que a estonteante primavera aninhou, em mantas de longos fios de ouro, perto dos desígnios que eram certos.

Mas sempre a Floresta renasce.


Comentários [.2.]               posted by Diandra Taliasin at 4:04 AM
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