Na Floresta do Alheamento
      Divagações sobre um tempo etéreo...
      Devaneios imaginários da vida cotidiana que nos engole...

      " ... e que não tardeis tanto quanto o quebrar das almas , no intocável silêncio do desespero."


Quarta-feira, Outubro 30, 2002

Eram quatro da manhã e o interfone tocava sem parar.
Do outro lado, a voz ranheta e rouca urgia pela presença, comunicando o arrombamento do carro.
Ela fica meio estática entre a cozinha e o corredor.
Por chamadas às quatro da manhã , o telefone hoje não toca mais.
Por toques estridentes, às quatro da manhã, o celular repousa em alguma gaveta perdida.
Zonza e semi adormecida, as ações seguem uma lógica díspar: não esquecer de escovar os dentes, separar os brownies e quitutes como agrado aos queridos que são pouco vistos, prender laboriosamente o cabelo, achar a chave de casa.
Quase na porta a dúvida? Será que eu lembrei de escovar os dentes?
Pelo sim, pelo não, nova guerra com a escova. (Sim, ao término da segunda escovação, ela se lembra que havia realizado a primeira).

Embaixo do pilotis do edifício, os guardiões tensos aguardavam.
Foi só o vidro, dona. Ele só tirou o vidro, e mesmo assim sem quebrar.

Ela sorri, já desperta, sempre leve e sempre divertida.
A fuga do vidro é uma excelente desculpa para admirar mais um nascer do sol, engolindo as lâmpadas, acendendo as luzes da cidade.

E no trajeto permeado pelo azul indecente daquele horizonte plano, o silêncio do dia que inicia a encontra sozinha no carro. Mas repleta dos olhos almas sonhos daqueles que guarda.

Para tudo há uma estação, e um tempo para cada propósito sob as estrelas.

Comentários [.3.]               posted by Diandra Taliasin at 5:07 PM
Terça-feira, Outubro 29, 2002

Dentro de mim há um lugar onde vivo totalmente sozinha; é
lá que se renovam as fontes que nunca secam.
Pearl S. Buck

Comentários [.11.]               posted by Diandra Taliasin at 12:08 PM
Segunda-feira, Outubro 28, 2002

Hoje o dia amanheceu e me pegou esperando estrelas perdidas.
A tarde me trouxe paisagens de canaviais a perder de vista, envoltos no verde cantar dos dourados sonhos.
O céu vespertino cobre-se de nuvens, molhando a cidade de luzes radiantes.

Hoje a floresta fecha um ciclo. 365 dias de florescer e conhecer, descobrir e desvelar, verter e calar.

A chuva lava os olhos que tanto perderam e muito ganharam. Lava a alma que se descortina todos os instantes, que se apaixona a cada suspiro, que se torna mais fluida e abraça corações, corpos, destinos.

O texto que escolhi hoje, é o primeiro que aqui plantou raízes.
Porque somos memórias. Porque somos lampejos de estradas ainda por vir.

Minhas chuvas...

Voltou a chover na minha cidade de luzes...
Chuvas de verão, como as chamam aqueles apenas preocupados com os fenômenos meteorológicos.
Tênues cortinas de mundos mesclados são para mim, tais chuvas, que vem beijar a terra, tão castigada pelo sol inclemente de fevereiro.
O cheiro da chuva toma tudo a minha volta... e sobrepuja os odores físicos e aqueles que são da alma... desaparecem no suave encanto da chuva o calor, o suor dos cansados, o perfume das mulheres vaidosas, o cheiro da comida sendo preparada, o ácido cloro das piscinas azuis como um mar de fundo branco, o adubo dos canteiros da flora da cidade.
Assim como se esvanece também o cheiro do medo pelas coisas que ainda não vivemos, o perfume da saudade daqueles que amamos tanto, o odor daqueles que passam por nós o tempo todo, incessantemente. E como passam por nós, essas pessoas.
Domina o ar, o tempo e a nós, o cheiro da chuva... que traz abrigo, que acaricia corações, que guarda a promessa de mais verde, mais calma, mais paz.
Nada melhor do que dormir num dia de chuva.
Ficar deitada horas, abraçando aquele que você ama, sorvendo beijos de chocolate quente e assistindo enebriada ao balé das pequenas gotas que encontram a janela, e por ela deslizam, como que a fazer um carinho naqueles que estão descansando.
Uma de minhas paixões é ter uma janela enorme no meu quarto. Toda de vidro, açambarcando uma parede inteira só deste mundo externo que passa a fazer parte de mim. E poder amar as estrelas enquanto procuro Morpheus.
Conversar com a chuva enquanto as gotículas encontram a terra-mãe, ouvir o que dizem as árvores em suas conversas com o vento, e deixar mergulhar em mim o mundo físico, com todas suas transcendências metafísicas.
Ter uma janela para o mundo.
Uma janela que carrego hoje dentro de mim...
E a chuva que cai entre as luzes da cidade me embebe de meus mundos.
A cada passo meus olhos encontram no chão um portal ao mundo debaixo d'água.
E cada alçar de olhos me traz luminuras de um campo de céu completamente nítido e aberto a exploradores. Existem aqueles que dizem que as nuvens escondem o céu, mas o que são as nuvens? Espaços de nossa criação, imensos jardins brancos, onde nossos sonhos e desejos são livres para plantar as imagens que almejamos. Um caminho entreaberto para os segredos das estrelas que nos observam em nossas tentativas de imaginar seu universo.
Tais elocubrações me trazem lembranças de tempos que eu vivi.
Um dia de chuva em Buenos Aires, quando voltava do colégio, e o motorista não conseguia nos encontrar, dado o estado calamitoso de inudação. Andamos quadras com água até os joelhos, eu e meus irmãos, divertidos em ver os redemoinhos nos bueiros, encantados com a força das águas em nossas pernas, abismados com o barulho e a simpatia da chuva que inundava nossas roupas.
Um dia de sol e chuva, em Brasília, quando decidi caminhar, pura e simplesmente porque queria sentir a chuva molhando meus cabelos, meu corpo... como beijos de pessoas que há muito fizeram parte de nós, e sinais de encontros que ainda estavam por vir.
Um jogo de pólo ao qual me atrasei, como sempre, por ter encharcado o distribuidor do carro de água, e ficar sentada no meio da rua quarenta minutos escrevendo para mim os instantes que queria dividir com quem eu amava e estava longe. E ter um bombeiro amigo, ajudando a secar o carro, e chegar atrasada e ainda pegar o jogo começando, sendo arrastada para a piscina pelo técnico morto de rir com a chuva.
Não existe nada mais sublime do que nadar com chuva, sabia? A água invade tudo dentro de nós. Como se a alma passasse a ser água, e sorrir é tão mais fácil.
E me veêm à mente também imagens de momentos que eu amei... não porque tenha amado pessoas, ou lugares, mas porque amei momentos da vida que tenho.
Como a primeira vez que li Tolkien... já contei sobre isso?
Em Buenos Aires eu tinha um grande amigo... Maximiliano.. estudávamos juntos, sentávamos perto na aula.. aquela amizade de colégio, entre crianças ainda.
Onde a atração acaba sempre sobrepujada pelo companheirismo...
Max vivia com um livro, El señor de los anillos... e me contava as estórias, e me chamava de Eldawen, estrela do mar, pois meu encanto pelo mar e pela água eram já presentes naquele momento...
E fomos amigos durante dois anos... ele era muito fechado e eu era muito distante, sentindo-me parte de um mundo que não era meu, e que tinha fim previsto, o dia de retornar à casa...
Me lembrei agora que ele me deu a camiseta do seu time predileto... que eu não me lembro agora qual era, mas acho que ainda a tenho em algum lugar...
Mas ele me contava estórias, e sorríamos juntos... várias vezes quis me emprestar o livro, e eu nunca quis, por acreditar que era ficção demais...
Quando voltei ao Brasil via-me inundada das presenças daqueles que eu considerava não fazerem parte do meu mundo... e isso me angustiava..
Um dia caminhando pelo Conjunto Nacional, parei na Sodiler para olhar os livros.. e vi na vitrine O Senhor dos Anéis, da edicao Europa América.. volume 1... e num ímpeto entrei e comprei-o...
Passei os dias seguintes, saindo da aula e caminhando para casa com o livro entre minhas mãos.. e sentava-me embaixo do bloco (como tenho sentido falta de fazer isso!), encostada numa pilastra em meio as árvores da quadra, e me deixava invadir pelas estórias da Terra Média, o Shire dos pequenos hobbits, e a língua élfica que me trazia lembrancas de Eldawen.. nunca encontrei Eldawen nos livros.. uma liberdade poética de Max ao combinar duas palavras do sindarin para criar para sua amiga o nome que ele queria lhe dar...
E isso me calou na alma mais do que qualquer outro gesto...
Persegui durante meses os outros livros... os li aos pedacos, esperando que a livraria recebesse a continuação da saga da irmandade do anel...
E tanto fez parte de mim os caminhos que li, como introjetou-se na minha alma as imagens e as lembranças que por muito tempo eu acreditei que não eram minhas...
Gostar de Tolkien tornou-se referência de ser mais fiel e sincera aos sonhos da minha alma...
E assim começou minha estória...
Cada página traz uma lembrança da vida que tenho, dos instantes que vivi, dos desejos que guardo em meus horizontes futuros... e me percebo em cada um dos personagens, assim como encontro meu universo em cada descrição das paisagens que os olhos da irmandade encontram em suas andanças...
E é sublime olhar uma árvore florescendo e imaginar um Mallorn mágico, em toda sua majestade...
Ou ver um rio revoltado e sentir que os filhos de Elrond estão em seus cavalos revolvendo as águas...
Sutil e intempestivo encontro esse com minha própria alma... dentro de um livro...
E essa chuva que cai o tempo todo e me assola de recortes do que sou....

Colho um Lírio único, cheio de beijos de chuva em suas pétalas e sopro nele minh'alma que se espelha nas gotas de água que o refletem....
guarde esse lírio com você, como guardas a mim...

Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 6:08 PM
Sexta-feira, Outubro 25, 2002

Porque o calor dos dias esquenta o corpo e abriga a lentidão da alma.
Porque a esperança tem o gosto ardente, o passo firme, a figura marcada em tons vistosos de um verde que fulgura e ofusca os corações letárgicos, no ritmo arrebatador dos sonhos que desenham os dias.

Porque somos isso: corpo e alma, coração e vida.
Hoje. Neste presente rascunhado no passado, neste presente rascunho do porvir.

Concerto para Corpo e Alma

Compreendi, então,
que a vida não é uma sonata que,
para realizar a sua beleza,
tem que ser tocada até o fim.
Dei-me conta, ao contrário,
de que a vida é um álbum de minissonatas.
Cada momento de beleza vivido e amado,
por efêmero que seja.
é uma experiência completa
que está destinada à eternidade.
Um único momento de beleza
e amor justifica a vida inteira."

Rubem Alves

Comentários [.3.]               posted by Diandra Taliasin at 5:19 PM
Quarta-feira, Outubro 23, 2002

Voltando sempre, sempre um encontro dentro e fora dessa alma que insiste em alcançar os olhos espalhados.
Mais uma vez gitana, uma vez mais castiza.

Porque existem estrelas que brilham, mas não são vistas?
E existe gente que nunca chego a conhecer
Ainda que os possa ver,
São os azuis feridos do amanhecer
Se desprendem do céu, arranhando-me,
Arranhando-te, arranhando-te

Há um universo de pequenas coisas
Que só se despertam quando tú as nomeias
Tudo o que é belo
Está esperando teu olhar
Tenho uma carícia
Que sem ti se me derrama

Há um universo feito de pequenas coisas
Que voam sobre tua cabeça, se as sopras
Há atardeceres que nunca acabam de se por
Há um mar inteiro
Resumindo-se em tua boca

Todo um universo de pequenas coisas
Onde ele me espera
De uma nuvem a outra,
Não há uma promessa
Que resista àquelas dúvidas
Não há uma carícia
Que possa àquela lua

Porque há estrelas que brilham por ai, eu sei
E existem lugares que nunca pude conhecer.
Por isso venhas ver, comigo o sol aquele
De prata salpicando-nos os mares de pequenas coisas.

Há um universo de pequenas coisas
No qual os amargos trançam flores
Para adornar fronteiras
Há uma mirada
Que sussurra às minhas costas
Quando os segredos
Ou se dizem
Ou se calam

(Hay un universo de pequenãs cosas - A. Sanchez)

Comentários [.1.]               posted by Diandra Taliasin at 5:41 PM
Quinta-feira, Outubro 17, 2002

E hoje choveu à tarde.
As lentas gotas de água, beijando a cidade e deixando o presente do frescor, em uma semana que começara semi árida.

Eu sempre encantada, me debruço na janela, e me deixo estar assim, suspensa entre esses dois mundos, de concreto e de fluidez.

Na árvore que balança os galhos, do outro lado da rua, um guaxinim assustado arrisca um olhar mais demorado, entre decidir se busca o colo que lhe é conhecido, ou se permanece distante, protegido por seus escapes fugidios.

Dia de chuva na cidade das luzes.
Dia de festa no meu mundo debaixo d´água.

Comentários [.7.]               posted by Diandra Taliasin at 5:53 PM
Quarta-feira, Outubro 16, 2002

Ela se senta, no banco de pedra escolhido a dedo, debaixo da mesma árvore onde, outrora, floresceram as últimas hortênsias da estação.

Nas mãos, sempre, o livro, o mesmo de outros dias, de páginas folheadas com zelo, de estórias que aparecem escritas, de imagens desenhadas em traços fugidios.

Hoje, a crônica do menino, do infante príncipe que tenta derrubar os muros da fortaleza onde o encerram.

"Sinto-me em uma prisão que não me exclui de nada, exceto do meu próprio mundo."

Assim também me sinto, por vezes. A angústia de jamais ser tudo que almejamos. E ao mesmo tempo, carregar em si todos os deuses, mortais, heróis, marginais, aventureiros ávidos por novas sensações, velhos homens, cansados já de tanto sentir.

E a realidade do que sonho, parece nunca colidir com o mundo concreto. Abraçar o mundo em meus projetos e ver, incerto, o tempo para realizá-los. Quando será a hora de simplesmente viver?

E sinto, como inócua e marcante, a passagem das homens. Ficam muito, ou pouco, passam apressados, ou deixando-se caminhar trechos dessa estrada, minha, deles, ou de ninguém, lado a lado, para depois perderem-se nas encruzilhadas engolidas pela noite, assoladas pela luz difusa de um sol qualquer.

E fica a sensação de que foi curta a convivência, mesclada com essa alheia consciência de que ainda serão tantos. Me perco neles, que me carregam consigo, e me preencho deles, que vão, mas permanecem.

Irrisível troca de azares, dores, amores, desejos, sentidos, ou mesmo, razão única de estar aqui.

Percebo, então, que minha pequenhez se torna imensa.
E tal ilusão, me faz presente dentro de minha própria alma.

Incoerente? A própria natureza o é.... E acredito agora, ter-me perdido no turbilhão das contradições do que não sou. E a minha passividade diante do caos me perturba.

Me deixo então, flutuar acima deste universo que não me pertence. Mas se por vezes tiramos os pés do chão, e nos deixamos divagar em uma realidade não absoluta, existirá o instante de reencontrarmos o elo com a terra.

Aproveito, pois, esta ilusão. E findo o instante da expressão me desfaço.

Sorria, criança, o tempo etéreo é nosso.


Comentários [.2.]               posted by Diandra Taliasin at 3:12 PM
Segunda-feira, Outubro 14, 2002

Eternidade e Impermanência
Clemência..
Angústia de sermos passageiros nos sonhos dos que por nós passaram,
nos momentos dos que ainda são... ou estão...

Sermos nós, imortais, e tais nômades dos caminhos ainda por vir.
Absoluta confusão, lúdica, lúcida, dúvida...

Eternos, pelo que por hora já não somos,
Impermanentes no anseio de consquistar as estrelas,
Que, todavia, não sabemos onde buscar.

Mas seremos presentes uns nos outros,
Qual as ondas que se desfazem,
Ao perder o mar.

Cidade das Luzes, Set 1995. Uma Aurora.

Comentários [.14.]               posted by Diandra Taliasin at 1:55 PM
Sexta-feira, Outubro 11, 2002

E mais uma vez desenho. Agora, não com tanta cegueira. Agora, mais dentro de mim, fora de mim. O agora. É sempre o que nos marca. Estou moldada. Um vaso de cerâmica. Os dedos esguios e ondulantes criaram-me no tornear de seus movimentos delgados e sobrepostos das ondas. Às ondas. Um vaso deitado na areia do mar, a tocar com suas curvas de imperfeitas brusquidões os anéis sonolentos e dourados. Um gesso deformado por mãos e sabores. Eu sabia que o momento chegaria. Aqui ele está. E agora. Novamente. Precisamos dele, rosto olhos boca nariz homenseios. Animosidades. Não. Desejosamentes súbitos. O vaso, eu e o momento antipontuação e ritmados no espreguiçar de uma tarde que se deita sobre teu corpo e, tomando-te, murmura uma imprecisa indefinida posse. Teu corpo e a tarde. Na tarde, teu corpo. Tão corpo, já tarde. Tão tarde teu corpo. Tão corpo a tarde. Dois corpos a descobrirem a noite ao entregar-se à tarde e, tarde, ao outro.
Corpos são táteis. Por isso os trago aqui. Que o murmúrio seja palpável, essa é a leveza da decisão. Beija tua impassibilidade e a seduz , que te quero leve ao receber meu momento. E as partículas do eterno em divisão.São tão frágeis. São tão nossos esses tempos estéreis. Mas não agora. A lágrima nos confunde porque sem teu rosto teu corpo já não se toca. Agora sim. Dentes e músculos na dança do teu rosto, solfejos de ondas a brincar nas rugas dos teus olhos. Meus olhos teus. Óleos em desespero nas rochas que se buscam com sede.



Comentários [.11.]               posted by Diandra Taliasin at 4:09 AM
Quinta-feira, Outubro 10, 2002

Abro a janela, e a lua sorri, pendurada em fios de prata, bela e soberba, na alta madrugada de silêncio.

Me debruço no parapeito, como tentando alcançar, com dedos sutis, os olhos daquele que busco.

Na ampla vastidão do tempo, a voz ecoa entre as estrelas, enlaçando espírito, acalentando almas, aquecendo corações.

Um único instante, fugaz e irresistível, rege o encontro da minha palavra e de seus sentidos.

Retorno nas asas daquela coruja perdida, tendo nos braços todos os sonhos desenhados, que guardo comigo.

Comentários [.2.]               posted by Diandra Taliasin at 1:15 AM
Quarta-feira, Outubro 09, 2002

Porque sempre o tempo que sopra, no entardecer calado, traz encontros e transmuta sonhos.
E esse avatar menino, vagueando a alma enluarada, me presenteia palavras que florescem em sorrisos:

Pela falta que faz o vento nesta tarde quente

Pela falta que faz você na minha alma ardente

À vista de ti

Nunca te vi, melhor que seja assim.

Teus cabelos seriam trinados ao vento?
Poderia eu dizer “treinados”, eles seriam — porque aí corre
o vento da tardinha — sempre me dizes do vento.

Guardo teus papéis eu guardo.

Perco-os, justo que me percam.
Um cartãozinho, teu, a te encontrar, azul,
azul seria
a saia de sair?

Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela
e os olhos vagos de nenhuma palavra?

O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.
Nestes tempos modernos, teria lugar para um
silêncio?

Falarias?
De que nos diríamos?
Melhor que teus cabelos fiquem ao vento.

Ah, vento doce, da noite,
como me perfumas o hálito desta noite cedo.

José Soares Feitosa
Salvador, 06.05.1997

Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 1:49 AM
Terça-feira, Outubro 08, 2002

E em tanto os silêncios são, tantas vezes, espelhos de ausência.
Em várias e outras, apenas, o fecundar de ilusões.

Abro a porta e o mundo urge, no frêmito de afazeres destemperados.
Tontas, as palavras em infinitos espaços contam o ruminante cotidiano. A alta do dólar, a falta de espaços produtivos, os mercados flutuantes, a violência em ondas de um mar bravio, a esperança democrática (ou apática?), a miséria da alma, do povo, dos dias.

Ainda com a porta aberta, estática, estética, corro os olhos pela sala e descubro, escondida atrás da cortina de feixes de bambu, uma janela azul. Onde o som das cigarras cantando a breve vida, o baile ensandecido das folhas tocadas pelo vento, o duelo sonoro dos pássaros da tarde, são como um convite a que se pare um instante.
Suspendam o fio do tempo!

Um breve momento diário. Um fugaz lampejo de uma luz distinta.
O doce prazer de redescobrir o belo nos olhos diversos do mundo.

Assim é a Floresta. Um simples recôndito da alma da moça, desvelado perante os espelhos de outros olhos.


Comentários [.6.]               posted by Diandra Taliasin at 12:59 AM
Segunda-feira, Outubro 07, 2002

Às vezes eu me perco, dentro dos meus silêncios.

Empresto a Neruda, que sonhou as palavras que tomam voz.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
E me ouves de longe e minha voz não te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
Parece que os olhos tivessem voado de ti
Y parece que un beso te cerrara la boca.
E parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma
Como todas as coisas estão cheias de minh´alma
Emerges de las cosas, llena del alma mía.
Emerge das coisas, cheia de minha alma.
Mariposa del sueño, te pareces a mi alma,
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
Y te pareces a la palabra melancolía.
E te pareces com a palavra melancolia.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
E estás como que queixando-te, borboleta em arrulho.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
E me ouves de longe e minha voz não te alcança:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
Deixa que me cale com o teu silêncio.

Déjame que te hable también con tu silencio
Deixa que tambem te fale com o teu silêncio
Claro como una lámpara, simple como un anillo.
Claro como uma lâmpada, simples como um anel.
Eres como la noche, callada y constelada.
És como a noite, calada e constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 1:41 AM
Terça-feira, Outubro 01, 2002

Porque outros também vêem luzes permeando o espaço físico de suas cidades:

As luzes da cidade-cidadã

Emiliano José

As luzes da cidade são lindas. Mais lindas quando prenunciam anjos, querubins, quando festejam o Natal, quando emolduram as águas encantadas do Dique do Tororó, quando alumiam os caminhos da Avenida Centenário, quando delineiam os contornos das Igrejas da Sé, a praça do Poeta, ou levam-nos ao Campo Grande monumental. As luzes da cidade são lindas, cheias de feitiçarias, porque nos sideram. Elas podem sugerir uma inexistente cidade – bela e feliz – e esquecer a outra, sem luzes.

Que ninguém lamente a cidade das luzes. Que ninguém reclame de as luzes soltarem a nossa imaginação. Quem sabe, abrandar o coração de tantos, quem sabe suscitar o espírito da solidariedade. Quem ninguém chore a beleza, que a beleza deve ser comemorada. Mas a cidade profusamente iluminada esconde outra, mergulhada na escuridão. Não, não é que nesta não haja luzes. Há. Menos, mas há. É que aqui se fala da cidade que a vista alcança quando se olha para baixo.

Quando os olhos, distraídos, alcançam o rés do chão, deparam-se com outra cidade, outra realidade. E esta realidade é dura para a maioria. Sente-se que os de cima governaram para uma elite, para embelezar a cidade para os turistas. Esqueceram dos pobres. Criaram cordões sanitários para excluir os desvalidos.(...)

Comentários [.6.]               posted by Diandra Taliasin at 5:46 PM

Toda música soa estridente, quando a alma está desafinada.
*Miguel de Cervantes*

Porque somos todos Quixotes, lutando contra moinhos de vento, em busca de uma ilusão que seja possível

Post escriptum: Um momento mundano, nessa floresta que é sempre tão alheia:
"e lembre-se q meus beijos são feitos de 100% Lilium, forjado na Montanha Mãe dos anões e tem 2000 anos de garantia."
O moço querido que me faz sorrir em meio à madrugada, me deu essa palavras em um aceno de bons sonhos.
E sempre é dele um carinho imenso, e especial, escondido por trás de olhos murados, que para mim são como véus de luz.

Comentários [.4.]               posted by Diandra Taliasin at 1:49 AM
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