
|
Domingo, Junho 30, 2002
|
Singrando entre as folhas verdes, Gigante pela própria natureza os raios de um sol radiante e amarelo És belo, és forte, impávido colosso, enchem o horizonte de azul imaginário. E o teu futuro espelha essa grandeza. O céu, a floresta e o ouro do astro rei. Terra adorada!
O coração retumba de orgulho de ser Nação. Gigante na alma, a glória nos olhos.
Entre outras mil És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos desse solo és mãe gentil Pátria amada Brasil!
|
Comentários
[.5.]
posted by Diandra Taliasin at 11:42 PM
|
 |
|
Sexta-feira, Junho 28, 2002
|
Na estante, o livro. Dentro do livro, a carta perdida, nos idos de um tempo onde os nômades eram cotidianos. Na carta perdida, o menino, das breves palavras passadas e da imagem do projeto arquitetônico de Sofrônia, nossa cidade escolhida.
O desenrolar sacal e insípido do mundo levou os deuses, gregos e novos baianos.
Mas Calvino perpetuou a Cidade. E nela nos reencontramos a cada estação.
As Cidades Delgadas
A cidade de Sofrônia é composta de duas meias cidades. Na primeira, encontra-se a grande montanha-russa de ladeiras vertiginosas, o carrossel de raios formados por correntes, a roda-gigante com cabinas giratórias, o globo da morte com motociclistas de cabeça para baixo, a cúpula do circo com os trapézios amarrados no meio. A segunda meia cidade é de pedra e mármore e cimento, com o banco, as fábricas, os palácios, o matadouro, a escola e todo o resto. Uma das meias cidade é fixa, a outra é provisória e, quando termina a sua temporada, é desparafusada, desmontada e levada embora, transferida para os terrenos baldios de outra meia cidade. Assim, todos os anos chega o dia em que os pedreiros destacam os frontões de mármore, desmoronam os muros de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o monumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, carregam os guinchos para seguir de praça em praça o itinerário de todos os anos. Permanece a meia Sofrônia dos tiros-ao-alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso do trenzinho da montanha-russa de ponta-cabeça, e começa-se a contar quantos meses, quantos dias se deverão esperar até que a caravana retorne e a vida inteira recomece.
*Italo Calvino, As Cidades Invisíveis*
|
Comentários
[.6.]
posted by Diandra Taliasin at 6:33 PM
|
 |
|
Quinta-feira, Junho 27, 2002
|
Tem algum tempo, estou imersa em uma mesma carta que ando a escrever. E ela me puxa, me devora, me desnuda. E quando a penso germinada, ela se esconde, e eu fico tonta, a buscar o fio da meada, o continuar das letras.
Essa tarde, encontrei um broto de hibisco, adormecido ao lado de uma derradeira folha do outono, enrodilhados como enamorados, um a aquecer o outro, a zelar, cuidar, nutrir.
Cheguei em casa procurando uma poesia de E.E. Cummings, e ao encontrá-la, descobri também as letras que enviei a um moço que celebro diariamente, a falar-lhe sobre essas datas estanques que criamos e acabam por nós aprisionar.
Deixo os dois aqui, a celebrar mais uma quinta feira de tons dourados e lilases.
Moço da brisa da madrugada, Todos os dias amo e a cada dia me apaixono. E me encanto e me desvelo, e me extasio e me engrandeço. Mesclada e absorta pelo calor das almas que me aquecem.
E o amar torna-se o querer bem, o sentir a ânsia do olhar do outro, do toque, do perfume. Amor, assim, bemfazejo, ingênuo. Quente mas não necessariamente tórrido. Cálido, porque puro.
Me divirto em dias assim, nacionais e oficiais, pelas reações que trazem. A obrigatoriedade de estar amando, de sentir-se miserável por não ter a quem comprar presente, de planejar horas e dias o instante de estar com o ser querido.
E eu sorrio porque amo tanto e tantos, que o sentimento transborda e não cabe em um único dia, em um único presente, em um estabelecido momento. A emoção é cotidiana, a cada minuto, a cada olhar, a cada encontro.
Feliz todos os dias dos enamorados, deveria ser a frase vigente. Porque enamorar-se é sentir pulsar sempre o coração.
Em algum lugar onde nunca estive (E. E. cummings)
Em algum lugar onde nunca estive, e felizmente aquém de qualquer experiência, teus olhos guardam seu silêncio: em teu gesto mais frágil há coisas que me envolvem ou que não posso tocar porque estão muito próximas
Teu olhar mais leve facilmente me descerra embora eu me tenha fechado como dedos, e me entreabres sempre, pétala por pétala, como a Primavera (por toques habilidosos, misteriosamente) abre a primeira rosa
Ou se teu desejo é me fechar, eu e minha vida nos fecharemos formosa e rapidamente como quando o coração desta flor imagina que a neve - cuidadosamente - está caindo em toda a parte;
Nada do que podemos perceber neste mundo se compara ao poder de tua intensa fragilidade; cuja textura me compromete com a cor de seus países e me entrega para a morte cada vez que respiro
(Nada sei do que te faz tão poderosa ao me mover; mas algo em mim compreende apenas que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas) ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos tão pequenas.
|
Comentários
[.6.]
posted by Diandra Taliasin at 6:49 PM
|
 |
|
Quarta-feira, Junho 26, 2002
|
A moça da floresta foi carregada para os recônditos de um alheio universo, por anjos de três asas. E ali se deixou ficar, envolta em imagens, penas, espadas, pingentes, corpos e espíritos. Mais uma batalha imaginária, surreal e infinita entre o Céu e o Inferno.
Um herói cibernético, um outro anjo de asas escondidas, armado de paciência, devoção e carinho, ouve os gritos, os sorrisos, o receio, delírio e êxtase. E recebe da moça, a gratidão suprema.
Rasgando os véus da noite, fico devendo para amanhã, a outra estória da série Primeiros Beijos.
|
Comentários
[.4.]
posted by Diandra Taliasin at 4:19 AM
|
 |
|
Terça-feira, Junho 25, 2002
|
O telefone tocou em meio à noite. Ruído rouco e insistente da máquina automática atendendo as ligações que são caladas em um definitivo silêncio, na casa que não tem relógios.
Hoje, um toque distinto. Ela atende.
Do outro lado, a voz grave e familiar, marcando o cansaço do trabalho igual, a ausência sentida, a apreensão da ânsia, a urgência em frêmitos do contato. - Ei, estranha! - Saudades, moço urso. - Quando te vejo, emersa destas brumas que te escondem? - Semana que vem? Volto de viagem e marcamos uma sessão de blues e vinho. - Eu tenho medo dessas datas tão definitivas com você. É como um mergulho nas curvas de um leque de Mikado. Você me dá o gosto dos seus beijos, me sinto enlevado e ao mesmo tempo, perdido.
Ela sorri, sentada no chão de lineóleo da sala.
- Te surpreendo uma madrugada qualquer, então, com vinho e presença.
A conversa segue. Risos, relatos condensados dos diários vividos, estupefação com as mudanças das gentes, ensaios de cantos, récitas de encantos, até a despedida carinhosa, como sole ser em telefonemas raros a estes seres tão próximos.
Ela senta à janela, acende o cigarro e canta o mesmo vocalise, embalando as estrelas.
Ele deita no sofá, liga o som (tocando Etta James - Stormy Weather) e apaga as luzes do cômodo de paredes vivas. E espera. Há sempre uma espera lancinante antes do encontro.
|
Comentários
[.9.]
posted by Diandra Taliasin at 11:01 PM
|
 |
|
Segunda-feira, Junho 24, 2002
|
Dizem que ela é como a lua e se transmuta em fases. E a cada uma, ela se despe da veste cerimonial que lhe orna o corpo, como se despetalando em uma jornada ao cerne. Mas o lírio se mascara em beijos de rosa.
As camadas se sobrepõem no solo, uma a uma, tantas que a lua de fases se torna o contar dos dias. Não mais rosa. Tampouco lua.
Apenas a mulher nua, impregnada na alma com o perfume dos lírios.
|
Comentários
[.10.]
posted by Diandra Taliasin at 12:49 AM
|
 |
|
Domingo, Junho 23, 2002
|
Meu moço do riso gostoso, da voz melodiosa e profunda, e que se esconde nos recifes desse mar eterno que nos distancia, encheu meus olhos das imagens que estava a derramar.
E eu, aqui, embebo a alma dessas palavras, e vejo fugirem, sete vezes, as sete lágrimas que há sete eras moram em mim.
Romaria Haroudo Satiro Xavier Filho
Filho de peão, João, o sétimo filho de um sétimo filho, arruma suas coisas junto a uma pedra. No sétimo dia de viagem, João pensa nos sete pecados, e vê que se cometeu algum foi há muito tempo. Satisfeito com esse pensamento, pousa a cabeça no pequeno volume formado pelo seu casaco de couro e bizaco.
João dorme um sono justo, de quem cansa ao caminhar mais de sete léguas. Por sete horas dorme, e acorda às sete da matina. Galos não cantam no sertão, no mato brabo de juremas.
João levanta-se devagar, deixa que seus ossos estalem, e sete vezes ele conta os sons de sua idade. Arreia as calças e a céu aberto alivia suas entranhas. Olha pro horizonte, conta sete vezes sete nuvens e pega seu casaco, chapéu redondo de couro e seu velho e querido bizaco.
Ele anda com cuidado, mas com satisfação. Busca o cavalo que deixou mais abaixo, perto de um olho d’água. Sobe no animal que possui há sete meses e calcula em sete léguas a sua próxima parada.
Dos sete filhos, só ele prestou. Isso já dizia seu pai antes dos outros se perderem na vida. Mas sua vida também não degringolou. A seca comeu o mundo de João. Comeu pelas beiradas, e dele só restou o caipira, vaqueiro que procura fazendas onde trabalhar, rebanhos para manejar.
Carnaúba de Antônio Silvino, ou melhor...Onde ele morreu há mais de sete décadas. João disso sabe. Ele desce as pedras, talvez as mesmas nas quais o cangaceiro foi tão perseguido. Seu pai contava histórias de cangaço, como contava o seu pai também, a sete filhos.
Casebres surgem na seca mata de juremas. João cavalga devagar e levando a boca a arribaçã assada e já dura, caçada há dias atrás. Ele lembra de sua mãe, seus carinhos, comida e devoção.
“Romaria”, disse sua mãe, morrendo, sentindo uma dor da gota. Chorando morria a mãe de João, e morria dizendo a João, “Uma Romaria, João... Faz pra tua mãe, filho, pede por mim, pede a Nossa Senhora pela alma de tua mãe”. E vertendo lágrimas nunca antes vertidas, levantou-se o peão para cumprir o último desejo de sua mãe, que morria ali em meio a uma falação desigual, tão calada sempre fora a sua mãe.
E João foi, e já por sete semanas, vai, em Romaria. Lembrando de seu pai, peão, sua mãe, Solidão. Perdido em lembranças e vivendo de Sol. E o Sol não enternece seu coração magoado, sua alma desiludida.
João galopa com olhar de resignada determinação, saindo da Carnaúba, em uma agora eterna Romaria, pedindo a Nossa Senhora de Aparecida, que lhe tire dessa mina escura e funda, o trem sem rumo de sua vida.
Romaria Renato Teixeira
É de sonho e de pó. O destino de um só. Feito eu, perdido em pensamentos, sobre o meu cavalo. É de laço e de nó. De gibeira e jiló, dessa vida, cumprida a sol.
Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida.
O meu pai foi peão. Minha mãe, solidão. Meus irmãos perderam-se na vida à custa de aventuras. Descasei e joguei. Investi, desisti. Se há sorte, eu não sei, nunca vi.
Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida.
Me disseram porém, que eu viesse aqui, pra pedir de Romaria e prece, paz nos desaventos. Como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar.
Sou caipira, Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida.
|
Comentários
[.9.]
posted by Diandra Taliasin at 1:35 PM
|
 |
|
Sábado, Junho 22, 2002
|
A esperança disfarçada de campo abrigava hoje, as margaridas tintas do rubro calor da saudade. Ficamos a conversar sobre o que não pode ser desfeito, nem reescrito.
E o Gato, adormecido entre as folhas, tinha para nós um olhar zeloso e aceso, por trás dos óculos de lentes azuis.
" A noite então se finda O apito forte nos avisa o fim também da viagem. Stop! o trem parou ou foram as palavras?"
Digo, o Neiva mais felino, nas luzes do congresso em meio a lua.
|
Comentários
[.3.]
posted by Diandra Taliasin at 7:27 PM
|
 |
|
Quinta-feira, Junho 20, 2002
|
Os círculos na areia do jardim de madeira, entremeado de pedras, dançam um balé difuso, na ânsia de beijar as bordas como as ondas acariciam a areia em madrugadas de lua magnânima.
E eu me esqueço das datas, como mergulho nas rodas concêntricas.
|
Comentários
[.3.]
posted by Diandra Taliasin at 11:03 PM
|
 |
|
Quarta-feira, Junho 19, 2002
|
Madalena e seus tons dourados Venho sonhando com ela nas últimas semanas. E sem motivo aparente. Aquela visão em devaneio que se constrói ponto a ponto, frame a frame, e num piscar de olhos, lá está ela, inserida dentro da fotografia que meu subconsciente está contando por trás das pálpebras fechadas.
De um lado ela surge, em seu vestido verde de tafetá, com flores coloridas estampadas, dançando no corpo e no tecido. Em outro lampejo, sentada na varanda da casa nova, com fortes paredes de madeira, ela sorri enquanto conta a última viagem e as rotas dos pássaros no jardim de mangueiras e abacateiros.
Assim, no lusco fusco do ocaso rasgando o véu da noite, sempre envolta na luz dourada que, eu tenho cá para mim, emana dela e a ilumina em tons de ouro jorrando da terra.
Conto pra ela, e ela ri ao telefone, com aquela voz gostosa de ouvir, e que nem 100 anos mais nessa terra de palmeiras vão fazer soar diferente: Me manda a planta, moça, que eu quero ver seu sonho.
E desperta, deixo passar diante de mim, as imagens que guardo dela, em um processo de descobrir e cativar, que hoje a acalentam dentro de minh´alma.
A primeira vez que a vi, sentada na poltrona da sala de estar, no robe vermelho tinto, os cabelos de um loiro vivo, cacheados pelo permanente, atenta e ciosa de que a visita aguardada além de estranha, estava extremamente atrasada. E o jeito gostoso, de buscar o livro da Tia Lucy com coelho e ratos, tigres e dragões, tentando prever a estória dos encontros que ali começavam.
Uma festa de aniversário, com oito garrafas de vinho sobrando, e três moços que insistiam em terminar com elas. Meio sem jeito, sentada a tomar conta deles, e a vagar pelos delírios advindos do alcóol, me deixei ficar à mesa. E de suas mãos vem o bule de chá chinês, nas xícaras de cerâmica marrom, trazendo jasmim a me fazer companhia.
Incontáveis festas e jantares, simples almoços (que com ela nunca são simples, mas verdadeiros banquetes de gourmets), onde sempre esbarrávamos um instante, a sentar na cozinha e conversar de trabalho, filhos, amigos, amores, vida, mundo, lembranças, memórias, futuros.
O dia de chuva, em que Jack, o bravo e combalido Uno, se recusava a dar sinal de vida, e nos deixamos descansar na cozinha, tecendo mais um retalho desta colcha de carinho que aprendemos a ter.
Nossos filmes aos domingos, às vezes melancólicos, às vezes incompreensíveis, mas sempre, tão somente o momento de passar o tempo junto, de dividir a saudade, o cansaço, a alegria.
E nesses anos que foram passando, ela tem pra mim sempre um tom de dourado. Nos cabelos, nos olhos que castanhos emanam o ouro dos seus sentidos, no jeito caro de demonstrar o zelo, na voz que borbulha como gotas de champanhe.
Um halo de metal precioso nessa mulher que é rara pelo que sente. Pelo que vive. Pelo que guarda. Pelo que lembra. Pelo que compartilha.
Me divirto agora com a recordação de uma última visita a Cléa, a bruxinha, que lhe passa um composto de oligoelementos, tentando cuidar da saúde, nem sempre de ferro: Ouro e Prata.
Claro que não poderia ser outro. Apenas mais um reforço a fazer brilhar essa luz dourada incandescente que envolve Madalena.
|
Comentários
[.5.]
posted by Diandra Taliasin at 10:57 PM
|
 |
|
Terça-feira, Junho 18, 2002
|
Eu tinha lampejos da vida nesta cidade das luzes para refletir aqui neste instante. Eu tenho o cansaço e a apreensão de querer proteger aquilo que não posso, o coração que não alcanço.
Mas tudo ficou dormindo, inerte, quando as não esquinas desse meu pássaro de edifícios esbarraram nos encontros que sempre me fascinam e encantam.
Rostos de anos que eram fluidos, mãos que se entrelaçam a desenhar novos caminhos.
Enviei ontem, a um moço de um porto novo e cálido, as palavras que riscam o ir e vir de tantos que prezo em bem querer. O sol que beijava as ruas hoje, me trouxe o sorriso refletido nos olhos de um desses caminhantes que abraça o mundo.
E no cristal límpido da alma, ecoa a voz dos nômades... aqueles que cantam a vida.
Nômades nomes homens Outrora outra ótica, utópica, intrépida. Açambarcando paraísos de tudo e nada. Dando cascudo e porrada. Heróicos, dionísicos, sós... E no tempo, uma vez mais, Homens.
(A vocês moços de tempos díspares e cidades gêmeas, perdidos em um novembro onde as colinas de Brasília eram arcadianas)
|
Comentários
[.10.]
posted by Diandra Taliasin at 8:07 PM
|
 |
|
Segunda-feira, Junho 17, 2002
|
Devo cartas aos olhos que carrego comigo. Devo presença aos corpos que me fazem companhia em alma.
Mas esses dias me deixei divagar, absorta, no mosaico de imagens que desenho como carinho ao guerreiro que volta de suas batalhas distantes.
E, sem palavras, estampei meu coração no tampo de madeira em que estava trabalhando.
Às vezes o tempo gosta de repetir as mesmas histórias. Às vezes ele se diverte, escrevendo novas linhas.
Que ela, anjo de quando me falta tento e tanto, fale por mim:
Antes do Nome Não me importa a palavra, esta corriqueira. Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás", o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível muleta que me apóia. Quem entender a linguagem entende Deus cujo Filho é Verbo. Morre quem entender. A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada. Em momentos de graça, infreqüentíssimos, se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. Puro susto e terror.
Adélia Prado
|
Comentários
[.3.]
posted by Diandra Taliasin at 12:02 AM
|
 |
|
Sexta-feira, Junho 14, 2002
|
Tenho um sorriso molhado em sonho e vento ás vozes que hoje colorem meu andar distraído.
Deixo aqui apenas, a promessa de contar sobre a mulher envolta em luz dourada, que está cantando dentro de mim.
|
Comentários
[.7.]
posted by Diandra Taliasin at 4:11 PM
|
 |
|
Quinta-feira, Junho 13, 2002
|
Hoje, roubo dela as palavras que me trouxeram lampejos de cantigas de roda.
A Serenata
Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mão incríveis tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo o que não for natural como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que ele vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado
|
Comentários
[.6.]
posted by Diandra Taliasin at 3:09 AM
|
 |
|
Quarta-feira, Junho 12, 2002
|
Escrever uma carta é aquele ato, antigo e em desuso, no qual você pega papel, caneta ou lápis, lápis de cor ou canetinha, caneta tinteiro ou pincel, e rabisca no tal papel, que antes que você me pergunte, é uma folha normalmente branca, mas às vezes colorida, meio retangular, mas com outros formatos também, fininho ou mais grosso, que serve pra escrever. Bom, aí, você pega a coisa de escrevinhar, e caso você tenha esquecido também o que é escrevinhar, nao é apertar teclas não, é rabiscar umas garatujas no papel e com elas significar um código meio incompreensível, tanto pela necessidade do mestre decodificador, quanto pelos rabiscos hireoglifados de alguns indivíduos, normalmente conhecidos como médicos ou seres de caligrafia dificil de ler. E, não, caligrafia, nao é uma ciência exata, mas uma ciência lírica. Entendido *mais ou menos* o que são estes elementos, você rabisca, ou risca o tal papel, com esse código meio idiossincrático, e com ele vai formando um desenho, uma imagem, um sentimento, um olhar. Claro que cada um tem um jeito diferente, e ao contrário do que conhecemos, nem todos os rabiscos respondem por nomes como times new roman, verbena ou arial. Eles simplesmente não tem nome, apenas uma impressão única daquele que tomou o pincel.
Então, você, nesse processo de se colocar no tal papel, arrisca nos riscos o que é uma carta. Onde você pode dizer qualquer coisa, ou simplesmente não dizer nada, além de tudo.
O último passo é dobrar a tal folha escrivinhada e colocá-la dentro de um outro retângulo de papel (o mesmo papel lá de cima, só que com umas dobras especiais), e colar as bordas pro primeiro papel não fugir de dentro do segundo.
Você, sorridente, e pululante, caminha até um edifício, hoje desconhecido, e acho que até em extinção que se chama Correio. Não, não, não precisa correr, nem levar a correia da sua bicicleta. Basta chegar lá, falar com um moço ou uma moça que vai estar com uma cara feliz de seja bem vindo, entregar o tal retângulo pra ela, onde ela vai colar um outro pedacinho menor ainda de papel, com umas cores bonitas e os símbolos de frutas, ou instrumentos, ou ainda do cara lá que ganhou várias corridas de fórmula 1, vai bater um carimbo inúmeras vezes, e atirar o seu papel dentro do papel, num cesto de asas, onde sua carta vai viajar e alcançar o outro, como quem atira um beijo ao ser amado.
De singela e simples, uma carta é isso. Um beijo em quem se ama, estampado no papel.
|
Comentários
[.6.]
posted by Diandra Taliasin at 12:33 AM
|
 |
|
Terça-feira, Junho 11, 2002
|
Apenas sorrisos e letras
Porque esquecemos de agradecer. Esquecemos de admirar as pequenas dádivas, as despropositadas emoções, os inexplicáveis carinhos.
Hoje apenas elevo o coração e derramo os sentidos que transbordam dentro, caudalosos e urgentes. Apenas para agradecer.
E agradecer tão simplesmente por ele ser aquilo que é. A exata medida do que se deixa conhecer, do que expressa, do que sente e emociona. Sou bastante irrisível com explicações de empatia, mas, se é necessária uma sentença estática pra descrever o parágrafo, fico com esta: Gosto da luz ele emana. E cá estou, duelando com o sono e com a febre, apenas para redescobrir o caminho dos meus sonhos e do calor de viver. Parece esdrúxulo? Talvez. Mas assim são todos os instantes de nossas vidas. Perder pra ter novamente. Estar sozinho para aprender a estar junto. Chorar para saber sorrir um dia. E nossas lutas parecem sempre encontros insustentáveis e magníficos de exércitos de um homem só (E me lembrei agora do livro do Scliar). E a magia que guarda esse encontros, só nos é tangível quando já não sabemos. Estamos sozinhos, contudo, os olhos encerram os sentimentos e passagens de todos aqueles que já fizeram parte de nós. Por isso seguimos sempre adiante. Eterna e impermanentemente vamos ser assim, e seremos cada dia mais belos, e seremos mais luz. O todo passa com o tempo. Ou passa no tempo, ou passa o tempo no resto. Assim como passam as estações, as brumas, os tempos, as cores, as mágoas, os medos e o escuro. Todos os dias são novas batalhas. E novos sóis... Eu me vi atropelada por Maiakóvisk: Gente é para brilhar. Que saibamos brilhar hoje, em mais essa sessão de TV, e em todos os dias que serão vividos depois.
Brilhar com a alma.
|
Comentários
[.4.]
posted by Diandra Taliasin at 9:57 AM
|
 |
|
Segunda-feira, Junho 10, 2002
|
Eu risquei a janela com dezenove cores da palheta. As nuances matizadas trouxeram pedras e pó.
|
Comentários
[.7.]
posted by Diandra Taliasin at 12:24 PM
|
 |
|
Sábado, Junho 08, 2002
|
Perdemos sentidos E sendo omissos fugimos do tempo.
Sofremos instantes e entre atropelos e rompantes, construímos a vida.
|
Comentários
[.2.]
posted by Diandra Taliasin at 6:09 PM
|
 |
|
Sexta-feira, Junho 07, 2002
|
O calor e o inclemente sol de meio dia. O homem, parado na calçada. Olheiras, marcas fundas de rugas assinalam muitas passagens, amor e mágoa. Cabelo em fios de um cinza emocional, ornam-lhe a fronte esquecida. O olhar, duro, desesperado, meio doido, meio doce, vagueia pelos carros que surgem em vermelho, azul, prata, verde, carregando gente, horas, compromissos, fatalidades.
O homem, parado na esquina. Pensa. E por mais que os olhos fitem o mundo, ele cala o que grita dentro de si. É preciso se perdoar. O mais difícil sempre é se perdoar.
Do outro lado da rua, a criança, tomada pela mão do outro adulto, brinca de acompanhar os carros que passam, meneando a cabeça. O braço infantil figura um aceno, como se cada veículo fosse um conhecido recebendo saudação.
Desaceleração na corrida dos carros. Entre marcas e modelos, vão parando, estáticos em meio a pressa que a todos move.
Entre o labirinto de janelas, o homem parado no concreto vê a criança que sorri.
Um lampejo. O reconhecimento. Aquele brilho no olhar.
O semáforo verde do boneco que caminha. Passos rápidos dos transeuntes. Tudo se desfaz como se não existisse.
Todo mundo está sozinho.
|
Comentários
[.3.]
posted by Diandra Taliasin at 12:11 PM
|
 |
|
Quinta-feira, Junho 06, 2002
|
Um minuto na estória da moça que quebrou o cristal da alma.
Vez ou outra ela arriscava: abria uma janela e olhava o mundo lá fora. Nem sempre gostava do que via ou do que acabava entrando depressa , carregado pelo vento. Às vezes ela convida um, ou outro caminhante para entrar e tomar um chá consigo. Apenas pela sutileza da companhia. Contudo, em breve, o enviará para longe, em uma missão importante, onde ele não possa ser querido a ponto de ser interlocutor, irmão de horas difíceis. E a janela se fecha novamente em seu murmurio de mármore.
...e a manhã rompeu como uma queda, do cimo pálido da hora. Fernando Pessoa - Na Floresta do Alheamento
|
Comentários
[.1.]
posted by Diandra Taliasin at 8:59 PM
|
 |
|
Terça-feira, Junho 04, 2002
|
Escolheu, sem hesitação, das centenas de peças apresentadas no mostruário, uma Glock 22. Sentiu o peso, acompanhou levemente o desenho das linhas com os dedos pequenos e mesmo infantis. Carregou o pente com apenas três balas. Dirigia o carro com a serenidade e placidez da lua que estava no céu, e despontava imensa e senhora da noite que começava. Achou o lugar que procurava. Seus passos eram sutis e efêmeros, o tempo era seu domínio hoje, e deixara há muito os grilhões que a mantiveram cativa por tantos anos. As águas silenciosas refletiam todas as luzes do firmamento. Um tributo diáfano ao ato que presenciavam. Como um vislumbre , ela os avistou. Apenas três estampidos e o mundo voltou a seu passo cotidiano e ruminante. O primeiro acertou em cheio o coração cinza de medo. O disparo que seguiu, atravessou muralhas, véus, cortinas e paredes, despedaçando as máscaras da indiferença. O último projétil, infalível e determinado, dilacerou as entranhas de inércia da hipocrisia. E tal um risco calculado, ricocheteou duas vezes na parede da fortaleza e esbarrou na torre da confiança, derrubando tijolos e cimento, e raspou uma das asas da inocência. Um deles caiu. O outro alçou um vôo de prata, com as asas ensanguentadas. Ela guardou a peça de cerâmica dentro da alma que pulsava. O confronto chegara a termo. Dois olhos amarelos estariam aguardando seu retorno. Tudo tem um preço.
__________________________________________________ E porque tudo tem um preço, me vi eletrizada por estas letras que não são de hoje, mas de sempre. Rasgo a máscara sua e nossa de cada dia.
|
Comentários
[.5.]
posted by Diandra Taliasin at 6:33 PM
|
 |
|
Segunda-feira, Junho 03, 2002
|
Sons dão o tom dos dias que vivo, dos sentimentos que tenho. Realizam a mística percepção das sensações que guardo e enfeitiçam os corações em notas diatônicas. Tal uma película que se revela, sinto os sonhos como se fossem músicas. Embalada pela rede de tranças tecidas com o zelo do tapete de Penélope, divago sobre sentidos, e conto estórias do mundo, estórias de ilusões, estórias de amores, que trazem também estórias de pessoas, como nós, como eles, como tantos.
E não busco a chave de nenhuma porta escondida. Não quero o divino ou o intocável. Quero apenas o murmuro do olhar envolto em calor. O ressoar tranquilo dos sinos soprados pelo vento dentro das almas. O canto melódico de um coração em júbilo.
E o olhar vaga pelos outros eus e outros mundos. Tímida e serena, a sinfonia de cordas, como fios de prata, ecoa nos amplos pavilhões do ser.
O amanhecer desponta, engolindo a noite em luzes de fogo
Cá no meu canto, a voz, vestida de bailarina, entoa a letra.
E acalanta, no seio da vida, as estórias que conto. Estórias de músicas, músicas de estrelas, músicas da noite. Musas de um sorriso ao despertar.
|
Comentários
[.3.]
posted by Diandra Taliasin at 2:58 AM
|
 |
|
Sábado, Junho 01, 2002
|
Eu parei pra olhar a janela e a humanidade passou. Caminhando, correndo, atropelada. Entre arrebaldes e quebrantos. Em busca de encanto, som, sentido.
Empresto o poetinha, Vinicius de Moraes, para cantar o desfile das estórias que se vive.
(...)Há um renovar-se de esperanças Porque hoje é sábado Há uma profunda discordância Porque hoje é sábado (...) (...)Há um garden-party na cadeia Porque hoje é sábado Há uma impassível lua cheia Porque hoje é sábado (...)
E dando os trâmites por findos Porque hoje é sábado Há a perspectiva do domingo Porque hoje é sábado (...)
|
Comentários
[.0.]
posted by Diandra Taliasin at 10:21 PM
|
 |
|
Feeling today:
|
|
:: Sons
|
:. Diary of Dreams - Flood of Tears
:. Dave Matthews Band - #41, Say Goodbye
:. Rufus Wainright - Poses
:. J.S.Bach - Cello Suites
:. Cordas,sempre, tanto e mais, cordas
|
| |
|
:: Letras
|
:. As Aventuras de Um Violoncelo
- Carlos Prieto
:. Siddartha - Herman Hesse
:. The Dragonriders of Pern - Anne McAffe
:. Fernando Pessoa - Obra Poetica
|
| |
|
:: Memorias
|
|
|
| |
|